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Quinta-feira, Janeiro 29, 2009

Agosto - © Daniel M.

© Daniel M

Quarta-feira, Janeiro 28, 2009

Breve relatório sobre fissuras na minha cozinha

Em suma, o que se passa é isto:

mas sem literatura.

Segunda-feira, Janeiro 26, 2009

Este início

No livro da cozinheira burguesa, a receita de guisado de lebre começa com estas palavras muito sensatas: «Irá precisar de uma lebre.»

- Stendhal, Tratado Sobre a Arte de Escrever Comédias (Paris, Dezembro de 1813)

nightswimming- © Daniel M.

© Daniel M

Quinta-feira, Janeiro 22, 2009

«é estúpido pensar que o que realmente queremos para nós é o melhor destino para a maneira como somos»

- maradona, mais ou menos sobre os White Stripes, enquanto espera que a Editorial Presença lhe publique o romance (num texto onde, entre outras revelações formidáveis que não constam de nenhuma edição da revista LER, podemos também descobrir que o reputado escritor não gosta muito «de imaginar gajas a tocar bateria» porque «aquilo deve fazer descair as mamas»).

Dinheiro mal gasto

Qualquer pessoa que tenha viajado em transportes públicos, durante as horas de ponta, sabe perfeitamente que Deus não está nos autocarros.

Quarta-feira, Janeiro 21, 2009

Rewind

Julgo que foi o Michael Haneke quem disse, uma vez, que não gostava de flashbacks nos filmes porque estes lhe pareciam sempre explicativos. Um aborrecimento, portanto. Com a nossa memória passa-se o mesmo, é onde quero chegar, agora já sem o Michael Haneke. Tendemos a visitar o passado com o intuito de explicar o presente, à procura de resolver o novelo de complicações em que inevitavelmente nos enredamos, recuando e avançando sem critério. O ideal seria que a memória fosse incorporada no presente, abdicando dos truques todos. Sem enjeitá-la pois foi com as tempestades e a brandura do nosso passado que aqui chegámos, mas trasportando-a para a história de hoje, com leveza, tornando-a quase imperceptível ao primeiro olhar e muito mais funda quatrocentos golpes à frente, quatro noites, um verão escaldante, uma sonata de outono ou até nove semanas e meia depois. Impedindo, no fundo, contra todas as armadilhas, que ela se transforme num mau filme.

Segunda-feira, Janeiro 19, 2009

A Casa nunca foi Branca

dance for Obama - © Daniel M.

© Daniel M

Sexta-feira, Janeiro 16, 2009

Na drogaria, o facínora

- Boa tarde. Tem spray para formigas?
- Mas para matá-las?
- Estava a tentar evitar a palavra.

Quinta-feira, Janeiro 15, 2009

Frio

Desde que me disseram que «o frio é psicológico», a minha vida mudou muito. Agora saio de calções para a rua, quando neva. Sei que há quem se assuste e quem sussurre um «pobrezinho», entre dentes. Pouco me importa. Com o dinheiro que poupo em casacos e cachecóis, hei-de viajar até Puerto Rico, onde o verão nunca mais acaba. Não é que desgoste de aqui estar mas já que o calor não é psicológico (só o frio, disseram-me), deixo cá a cabecinha e levo apenas o corpo. Vai fazer-me bem.

In the streets of London,

a black cab is running against those frrrench bastarrrrds.

Terça-feira, Janeiro 13, 2009

Por um país melhor

O concerto dos dEUS no Teatro Sá da Bandeira - uma sala normalmente reservada ao diabo - para além de ter sido o melhor concerto de 2008, teve um momento que eu, com a preciosa ajuda da excelentíssima senhora internet, gostava de partilhar com vocês e assim iniciar a conversão deste país num território livre de palminhas. E o que são as palminhas? Para começar, apesar do irritante e justo diminutivo, as palminhas não são pequenas. Além disso, quase sempre parecem mais do que as mães, habitualmente ausentes dos lugares onde nascem, crescem e se reproduzem as palminhas (mas aos quais aflui, contudo, um número considerável de filhos da mãe). As palminhas acompanham a parte forte do tempo, não têm sincopas nem tercinas, nem swing, muito menos aquele jeito para rock'n'rollar. São quadradas como a cabeça que comanda as mãos. Moles e gelatinosas. Dão cabo dos nervos e da música, ao mesmo tempo. Sempre na parte forte do tempo, chiça.

Claro que para fazer de Portugal um país melhor, tive de recorrer, contra os meus princípios, a um vídeo gravado por um caramelo qualquer que, provavelmente, passou o concerto todo de braço no ar e com o ecrã plantado entre os meus olhos fundos e o palco. Enfim, o mundo não é perfeito. Mas vai ser, com a sua ajuda. Medite e divulgue (o uso da violência não é aconselhado mas serão toleradas todas as acções que resultem em fracturas do cúbito, rádio, pulso ou de falanges hiperactivas, desde que executadas com discrição e de forma a não comprometer o alinhamento do concerto). Depois trataremos do problema das câmaras de filmar.

Domingo, Janeiro 11, 2009

car - © Daniel M.

© Daniel M

Sexta-feira, Janeiro 09, 2009

2009

Joann Sfar (um génio) vai estrear-se no cinema como realizador de um filme sobre Gainsbourg (outro génio). Às vezes, estas coisas que parecem óptimas, não resultam; mas esperar por elas já é bom.

Terça-feira, Janeiro 06, 2009

Saltos epistemológicos

num sentido:

- Olha, meia-francesinha! Não sabia que era possível.
- Tudo é possível.
(duas raparigas saindo do «Capa Negra», por volta da uma da manhã)

e no outro:

Lá se foi o nosso jantar. Estas emoções só dão para uns ovos mexidos.
(Sara / Manuela de Freitas, no filme «À flor do mar»)

floor - © Daniel M.

© Daniel M

Domingo, Janeiro 04, 2009

Nanni Moretti engoliu David Byrne

Grafonola

Sábado, Janeiro 03, 2009

Quatro noites

O despojamento, só por si, não serve de troféu em lado nenhum, mas a verdade é que «Quatro noites com Anna», um filme feito com quase nada, merece os elogios todos porque é belíssimo, apesar de não ser um filme bonito e as personagens (gagas, lacónicas, fugidias) mal se conseguirem libertar da escuridão que as rodeia. Como o título indica, a história avança, com alguns flashbacks engenhosos, durante as tais «quatro noites com Anna», que são também quatro noites sem ela. Aliás, julgo que é desajustado dizer que o filme conta uma história de amor porque sempre que Léon se encontra com Anna, ela está quimicamente mergulhada no mais profundo dos sonos, graças a uns comprimidos que ele lhe desfaz no açucareiro, de modo a poder entrar, à socapa, em casa dela e, mesmo assim, ser bem recebido. Neste caso, ser bem recebido significa encontrar uma enfermeira roliça, adormecida e completamente disponível para a sua ternura. A dimensão sexual da obsessão, muito presente no início (ele assiste à violação de Anna por outro homem), é complementada, nas incursões dele pela casa, por um delicado teatro de pequenos gestos: ele pinta-lhe as unhas, cose-lhe o botão do casaco, oferece-lhe um anel, arruma-lhe a casa. Ainda assim, será talvez excessivo falar de história de amor porque, não esqueçamos, enquanto ele flutua de alegria pelo quarto, ela dorme toda a noite como um anjo e isso é um sossego. Ora o amor pode ser muitas coisas mas não é, com certeza, um sossego. Por outro lado, talvez o amor seja, sobretudo, uma incondicional e quase invisível atenção. Muito mais perto do desvelo ingénuo e subterrâneo de Léon do que do fogo-de-artifício que nos impingem as mil e uma comédias e tragédias românticas desta vida. De certa forma, Léon abdica do reconhecimento social e, por causa dessa desistência, acaba acusado de crimes que não cometeu. Mesmo Anna, sabendo que não foi ele que a violou, o abandona à solidão injusta da cadeia. Léon paga várias vezes o seu isolamento, a sua timidez, a inocência, a inabilidade no relacionamento com os outros, a excessiva subtileza no confronto com o mundo. E, claro, não escapa ao julgamento daqueles que ignora nem da mulher que deseja, mas não deve haver nenhuma alma que saia da sala de cinema sem perceber que há mais dignidade no seu sussurrar secreto por trás da cama de Anna do que no muro alto daquele plano final ou na justiça dos homens; como se o filme nos restituísse um esquecido respeito pelas coisas pequenas. «Quatro noites com Anna» é um filme sobre o público e o privado. E não sendo uma história de amor, é também sobre o amor.