O documentário talvez seja pouco abrangente e um tudo-nada escravo da cronologia e das memórias e intuições da irmã de Nick Drake, mas dificilmente se conseguiria encontrar um título melhor do que aquele que foi escolhido, tão fiel à biografia como à música. As canções de Nick Drake não são eufóricas, não são canções voltadas para fora, para os desafios do mundo, mas também não são viscerais, no habitual sentido da palavra; são apenas canções em que a pele não chega para proteger tudo.
É irrelevante que, durante séculos, sucessivas gerações de pessoas razoavelmente circunspectas tenham desenvolvido um batalhão de ferramentas teóricas que, quando bem manipuladas, permitem gerar, a partir de umas miseráveis 1200 entrevistas telefónicas a eleitores (alguns deles tontos, indecisos, mentirosos, mal dispostos, acabados de acordar, de ressaca, um tanto surdos ou gagagagos), uma previsão sobre as intenções de voto de 9,4 milhões de criaturas recenseadas e espalhadas pelas mais remotas freguesias da pátria. Conheces Pardilhó? E Ranhados? É irrelevante que, às oito horas e um segundo, as televisões possam avançar com o nome do futuro primeiro-ministro ou dos presidentes de câmara das principais cidades (e de Marco de Canaveses, e de Gondomar - olha, o Isaltino, em Oeiras), ainda o sr. Severa não fechou a porta da escola onde eu exerço o meu direito de voto, depois de um passeio nostálgico pelo polivalente onde, aos quinze anos, devo ter sido feliz. Pelas oito e vinte, já não há champanhe nas sedes de candidatura de António Costa e Rui Rio, Santana Lopes teve tempo para desistir meia dúzia de vezes da política e Elisa Ferreira mais do que tempo para fazer a mala para Bruxelas e um chazinho de camomila. Às oito e trinta, Passos Coelho solta a terceira declaração da noite porque já sabe que o pê-ésse-dê coitado e a Manuela Ferreira Leite coiso e tal. Às nove, Luis Filipe Meneses espuma de glória. É irrelevante que analistas e politólogos (um quinto da população nacional), tenham um belíssimo pretexto para passar as noites eleitorais afundados nos sofás dos estúdios de televisão, enquanto mastigam números de projecções que, obviamente, «não passam de números de projecções». O que importa é assinalar que as sondagens, às vezes, também falham, que têm falhado, e que devemos todos fazer uma reflexão profunda sobre esse facto. Ouviram? Todos, toda a gente, cem por cento das pessoas envolvidas nesta história a que chamamos Portugal. Isso sim, é que era. Não estamos nada contentes, que fique claro.
Terça-feira, Outubro 13, 2009
Les Femmes
«Dois amigos convidaram-me para uma coisa de homens: bebermos alguma coisa enquanto viam a selecção jogar. Um pediu um café, outro uma garrafa de água. Eu pedi uma cerveja.»
Sem querer deitar por terra os pilares que sustentam este post, é imprescindível fazer a ressalva que um jogo de selecção não é coisa de homens, como aliás se pode facilmente comprovar, recorrendo a uma rápida contagem do número de pessoas que, apesar de um completo desconhecimento, quer dos mais elementares princípios da lei do fora de jogo, quer da relevância anatómica dos ligamentos cruzados, acorrem a cafés e restaurantes para assistir aos jogos de Por-tu-gal. Uma coisa de homens seria um Porto - Paços de Ferreira, um Benfica - Olhanense, a vigésima repetição de uma cavalgada do Futre em direcção à baliza.
Quarta-feira, Outubro 07, 2009
Pretty horses
A contracapa da edição Picador do livro «The Road», de Cormac McCarthy, alberga algumas citações extraordinárias sobre as virtudes do livro «The Road», mas nenhuma melhor do que esta:
«The first great masterpiece of the globally warmed generation.» - Andrew O’Hagan
Ai sim? quem diria? Eu, por acaso, não. Num mundo realmente bom, em que as contracapas das edições Picador vivessem sob o meu jugo, a citação de Andrew O'Hagan seria substituída pelo parágrafo seguinte:
«A perseguição febril ao tópico noticioso mais próximo pode correr bem, mas implica um risco desnecessário: o registo histórico, tal como a wikipedia, é actualizado a cada minuto; o tema evolui, mas o seu tratamento literário literal fica ali gravado no papel, sem se poder adaptar. Pode parecer uma excelente e ousada ideia na altura, mas o autor arrisca-se a tentar entrar na posteridade de calças à boca de sino.» - Rogério Casanova
Na verdade, o principal defeito do «The Road» não é bem esse (está por provar que o cenário pós-apocalíptico do romance tenha alguma intimidade com o derretimento das calotas polares), mas, pelo menos, usar-se-iam as contracapas para disseminar algum bom senso e não a estapafúrdia ideia de que existe uma geração globalmente aquecida na vontade de ser representada pelo último romance de Cormac McCarthy. A literatura não precisa de nós para falar de nós, quanto mais das nossas emissões de gás carbónico. Mesmo uma geração que nunca tenha montado a cavalo e que só encontre o México no fundo nublado de um copo de tequila, ficaria muito mais bem servida, se não quisermos ir demasiado longe, pelo «All the pretty horses», um Cormac McCarthy bastante mais inspirado. Vai uma aposta?
Sexta-feira, Outubro 02, 2009
June in October
Há, na música folk dos países do norte, uma força tranquila que impede o desespero, que mantém as pessoas de pé durante as intempéries, uma força que é impossível de ser encontrada na Europa do Sul, convertida desde sempre a uma bela e desconchavada sinusóide de festa e pranto. Enquanto nós procuramos na fraqueza uma forma nobre de seguir os sentimentos, eles desejam ser fortes para poder estar à altura desses sentimentos. Latitude matters. Claro que isto não é exactamente assim, tão simples e arrumado, tão amarrado à geografia. No fundo, somos todos humanos. E um pouco chimpanzés. Além de que são abundantes os casos de pessoas que, digamos, acordam em Granada e passam o tempo todo, ou pelo menos o fim de tarde, em Derry. E há quem, tendo cama e pijama em Derry, nunca tenha sido visto fora de Granada. Contudo, e isso importa, essas pessoas, mesmo que não queiram, são obrigadas, para escapar às raízes, ao paralelo mais ou menos simbólico que lhes coube em sorte, a fazer uma viagenzinha mais ou menos simbólica, ainda que agradável e sem sobressaltos. Não há volta a dar, apesar das voltas que damos. Se o fado ou as canções napolitanas são sobretudo histórias de tumultos e arrebatamentos, histórias de faca e alguidar, de gente dilacerada pela vida, maltratada pelo amor, mas que, mesmo engaiolada no sofrimento, gosta imenso de falar, de dançar fora de horas, de vir à janela fazer caretas e de cuidar das feridas como se estas fossem tigres domésticos, muito queridos e ferozes, ou então bonsais, que são árvores completas em vasos pequenos, não sei se percebem onde quero chegar, a folk britânica ou nórdica interessa-se principalmente pelos silenciosos mecanismos do corpo, pelo combate, pelo trote dos cavalos, por essa serenidade algo incómoda e dolorosa, que também sobrevive e ronda as últimas coisas, e que está sempre lá, em qualquer final que se preze, depois das despedidas, nas ruelas às quatro da manhã, no caminho de regresso, na amurada do navio em alto mar. Acho que é isto.