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segunda-feira, outubro 15, 2007

È finita

Numa das cenas do filme «La Messa è Finita» de Nanni Moretti, o padre (interpretado pelo próprio Moretti mas sem barba) vê uma bola de futebol entrar-lhe pelo quarto adentro, julgo que pela janela aberta.Pouco tempo depois, um miúdo, ao acercar-se dela com o intuito de levá-la de novo para o pátio onde os amigos o esperam e apercebendo-se que o padre olha para ele em silêncio, decide permanecer timidamente à porta, à espera de ser repreendido. Moretti, com a bola na mão, sai então para o pátio e, em vez de vociferar contra as crianças que lhe interromperam o sono, dá uma pontapé na bola, começando a jogar com elas sem dizer palavra. Ao fim de alguns segundos e quatro ou cinco fintas executadas com uma técnica razoável (e sempre sem barba), resvala e cai no chão, permanecendo imóvel, desamparado na sua batina preta de sacerdote. Os miúdos, indiferentes à sua queda, continuam o jogo ainda mais alegres e gloriosamente alheados da presença do padre ali prostrado. Não é só a infância que lhes autoriza a leveza e o esquecimento. Quem já jogou futebol com os amigos sabe que quando alguém se contorce, deitado no meio do campo, há duas preocupações que surgem em simultâneo e que podem ser condensadas noutras tantas perguntas: «será sério?», «podemos continuar?». Não é certo que a primeira silencie a segunda mesmo que o amigo seja próximo e a partida se arraste aborrecida num pavilhão de subúrbio mal iluminado e quase vazio. Isso não significa que o amigo seja, para nós, menos importante do que o jogo - era o que faltava - mas não vale a pena ter vergonha da pergunta. Se Nossa Senhora tivesse aparecido durante o Fátima-Porto para a Taça da Liga (esse descabido milagre), os dois mil pastorinhos da assistência por certo teriam perguntado: «será sério?»; mas também (não duvidem): «podemos continuar?».

Mesmo no fim do «La Messa è Finita» a igreja transforma-se, a meio de um casamento religioso, num inesperado salão de baile com os noivos e os convidados dançando, aos pares, uma canção italiana. A basílica imponente que agora se inaugura em Fátima, engalanada por muitos milhões de euros, quer apenas lembrar-nos que as aparições e a fé são coisas sérias, com alicerces, mármores e joelhos ensanguentados, mas como nos apanham a meio do jogo (peço desculpa por esta metáfora), nós queremos sobretudo continuar. E de preferência, dançando uns com os outros, imitando o filme. Havendo boa música não há amigo que não se levante do chão.


[texto originalmente publicado no «Azinheira Spoken Word», a convite do Pedro Vieira, o irmão-lúcia]