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terça-feira, setembro 01, 2009

Caderno de Palermo

1. Para chegar à Sicília, a tripulação da TAP obrigou-me a comer uma sande de atum e a fazer escala em Roma. Tive de ficar quatro ou cinco horas aborrecidas à espera de ligação mas, nesse período de tempo, junto a uma das portas de embarque, vi a Catherine Deneuve, ligeiramente apressada. De agora em diante, quando, em inquéritos de Verão, me perguntarem: «já encontrou alguma celebridade no aeroporto de Roma?» (uma pergunta recorrente), eu vou poder responder «sim, a Catherine Deneuve».

2. Alcançar a varanda não é difícil mas é preciso, primeiro, correr uma cortina azul e abrir a portada até esta bater na parede e fazer um pequeno barulho, quase imperceptível; um barulho que fica aqui no 3º andar da pensão Vicho e não desce à rua, não se mistura com os sons da avenida, a esta hora um pouco menos agitada. Só na varanda, aliás, se consegue sobreviver às altas temperaturas pois o ar condicionado deve permanecer desligado, caso contrário - alerta o senhor Vittorio - o quadro eléctrico, débil desde nascença, deixará a pensão às escuras e o par de alemães do quarto ao lado reclamará num duro staccato germânico que eles, il tedeschi, em italiano não soltam a língua, nem uma palavrinha, assegura o senhor Vittorio, de camisa aberta e óculos embaciados pelo calor que não perdoa, mesmo depois do sol se pôr. Experimento ligar o ar condicionado. Confirma-se: a pensão fica às escuras. Não se está mal.

3. Em Palermo, dos carros sempre sujos saem mulheres lavadíssimas.

4. Viajar serve, entre outras coisas também importantes, para percebermos que isto é tudo muito mais vasto. A beleza não é nunca uma flor, como nos maus poemas. A beleza é um campo de flores, como nos bons poemas.

5. Há uma capela na estação de Palermo. Os comboios é que meu deus.


- Hoje, o vinho é de graça porque este é o último dia, vamos fechar para férias.
- E quando voltam?
- No dia 28 reabrimos.
- Sim, mas quando voltam a fechar?



6. Na Sicília, as editoras locais publicam muitos livros sobre a actividade subterrânea da máfia e os conluios de que ela beneficia, apesar de grande parte dos jornalistas utilizar o combate à cosa nostra como instrumento para outros fins políticos sem, de facto, tocar nos verdadeiros problemas (um pouco à semelhança daqueles deputados que falam das importantíssimas questões ambientais mas que nem sonham que a Serra Amarela tem mais do que uma cor). Os autores, porém, não se escondem atrás de pseudónimos ou abreviaturas, ao contrário do que seria de esperar. A máfia despreza quase sempre a literatura, os escritores. Não combate gente pálida, suponho.

7. Não há sítios para dançar em Palermo. Não se dança em Palermo, uma terra de duros.

8. No Mercado de Ballarò vejo o segundo golo da Lázio para a super-taça de Itália: um grande chapéu numa televisão pequenina.

9. Não duvido que aqui as fintas do Miccoli lhe saiam melhor do que em Lisboa - apesar de todas as transgressões, uma cidade demasiado arrumada e pombalina para aquele metro e meio de corpo preparadíssimo para enganar tudo e todos.

10. Sferracavallo é o nome de uma localidade. Se fosse nome de avançado, este seria certamente possante e incapaz de uma finta.

11. Grande início da resenha histórica do guia da Lonely Planet: «There's a reason why Palermo looks old: it is». Da mesma autora, podemos também encontrar este tratado sobre o optimismo e a fé na vontade dos homens: «Stay up enjoying Catania's nightlife and rise early for the amazing fish market». Stay up and rise early!

12. Um resumo? Pobreza e vitalidade.

13. Percentagem de italianos que respeitam as passadeiras: 0% (sem arredondamentos).

14. Percentagem de daniel num fiat panda velho: 32% (ainda cabes, pá).

15. Percentagem de habitantes de Palermo que convive bem com o facto de «palerma», em português, significar «idiota», «estúpido», «tolo», «néscio», «lerdo», «parvo», «bruto», «tonto» ou «imbecil»: 10%.

16. Parece que foram os árabes que inventaram esta coisa dos gelados (agora porreiro era uma comida fresquinha, com sabores, etc etc). Um grande e merecido abraço para os árabes.

17. Em Lisboa, uma italiana é um café, mas na Sicília, uma italiana é uma italiana.


- Percebes italiano?
- Sim, desde que falado sem entusiasmo.
- Mas eu sem entusiasmo não sei falar.
- Ok, então ficamos os dois aqui caladinhos.



18. Toda a gente esteve na Sicília: árabes, gregos, romanos, bizantinos, uma equipa de natação irlandesa, uma mulher alta e confusa. Até eu.

19. É mais difícil ser-se infeliz numa cidade em que as mulheres andam de mota.

20. O italiano é uma língua belíssima (às vezes) mas completamente desajustada à leveza subtil ou à ferocidade de uma canção rock. Percentagem de bandas italianas que me fazem lembrar Eros Ramazzotti: 98 % (2% para Laura Pausini).

21. Não se pode fazer nada para mudar o mundo porque, como seria de esperar, o mundo não quer mudar nem para o quarto ao lado.

22. Querias férias? Mil passos à frente são mil passos atrás. Mil noites à frente, mil noites atrás.

23. Escrita automática e vida ultra-diplomática.

24. Mais praia e menos catacumbas.

25. Ninguém pode dizer: «este é um momento histórico». É impossível saber logo. A história são os velhos que já não morrem, não são os jovens com a ilusão de eternidade.

26. Um tipo habitua-se a tudo e não se habitua a nada (o mesmo tipo, atenção).


- Boa tarde. Queria um gelado, «coppa piccola».
- De que sabores?
- Limão e chocolate.
- Limão não liga com chocolate.
- Mas eu gosto.
- Limão liga com morango, por exemplo.
- E com straciatella?
- Também não.
- Chocolate e melão?
- Não combina.
- Pronto, limão e morango.
- Um euro e cinquenta.


27. O sistema de recolha do lixo da cidade de Palermo está, como em Nápoles, nas mãos sujas da máfia. À primeira vista, esta não parece uma conquista demasiado importante mas, ao segundo cheirinho, é fácil perceber que se trata de uma arma poderosa. Os padrinhos podem ter trejeitos na boca e sotaques bizarros, quando falam inglês, mas não são parvos. Reciclagem? Uma arte abstracta e longínqua.

28. Para comer um panino con pannelle e crocché fui aconselhado a visitar o estabelecimento «Franco U Vastiddaru», um sítio de comes e bebes, aberto para a rua como se fosse uma roulotte de farturas e onde até o menos escrupuloso funcionário da ASAE poderia facilmente ser vítima de síncope cardíaca.

29. No país dos «machos latinos», o principal jornal desportivo é impresso em páginas cor-de-rosa.

30. Em Mondello, a 15 minutos de Palermo, é preciso pagar para aceder à praia. Às vezes esquecemo-nos mas Portugal tem duas coisas maravilhosas: uma costa sem dono e filmes com legendas.

31. Que em ninguém sobreviva a ideia de que eu gosto de Palermo.